domingo, 19 de abril de 2015

O Pai e o menino

Em algum lugar, às 15:40 h deste domingo…
‘- Pai, é hoje, hein! Lembra o que te pedi?’
-‘Fica calmo moleque, hoje tá comigo. Sei que é um dia especial pra você.’
-‘Mas sabe que o negócio por lá anda complicado, né? Não é mais como na nossa época. Tu vai ter que trabalhar direitinho.’
– ‘Quer ensinar padre a rezar missa?! Faço isso há mais tempo do que você dribla. Senta tranquilo aí e pede uma gelada que vai começar.’
A bola rola. Ou melhor, voa. ‘Lançamento’ pra lá e pra cá. Fim de 1º tempo: 0 a 0.
– ‘O Pai, já deu né? Olha o que esses caras tão jogando? Cadê a moralzinha que tu ia dar?’.
– ‘Já dei, não viu aquela defesa que o gringo fez? Sem mim ele não passa nem bola pela poça. Já falei pra relaxar.’
– ‘Mas só tem defesa, ninguém cria. Tá feio. Se bem conheço, daqui a pouco os caras acertam o cruzamento e fazem um. Vê se dá uma forcinha pra uns aí, tem uma galera precisando se redimir. Seria maneiro.’, diz o menino.
– ‘- Moleque pentelho. Tu é chato mas gosto de você. Mas só porque você fazia o que eu pedia também. Tem preferência por algum?’
– ‘Sei lá, me surpreenda’, responde o garoto.
Rafael Silva lança Serginho e o volante cai na área. Pênalti!
– ‘Putz, tu é o cara! Quem ia imaginar que ele ia avançar assim? Nunca sobe! Só você mesmo, Pai!’
Com um sorriso meio de lado no rosto, vira devagar e responde:
– ‘Serginho? Fui eu que fiz isso não. Dei uma cutucada foi naquele rapaz que assopra apito ali no meio, tá me devendo tem tempos! Não podia deixar escapar essa’, responde e solta uma leve gargalhada.
Gilberto cobra e marca: 1 a 0.
O menino pula em cima do Pai e dá um beijo na careca brilhante. O velho homem não se segura e cai na risada. Os dois estão em festa.
‘- Pai, vê se não deita mais cedo dessa vez. Viu o rolo que deu ano passado? Larga essa gelada e concentra. Enquanto ele não apitar tu não dorme!’, esbraveja o menino.
‘- Já que tu gosta de falar, usa esse restinho de tempo para rezar. Faz bem. Pega essa oração aqui no meu bolso, garoto.’, diz o Pai.
E o menino começa a orar em voz alta:
‘- Que o Alecsandro tenha pés, mas não use
Que Paulo Vítor tenha mãos, mas não alcance
Que o juiz tenha olhos, mas só pra gente
E nem um regulamento possa nos fazer mal…’
‘ – Tu não presta, Pai!’, fala o garoto sem conseguir segurar as lágrimas de tanto rir.
‘- Olha o respeito, moleque!’
‘- Voltou?’
‘- Voltou!’
O Flamengo passa a pressionar e o menino começa a ficar nervoso. Tranquilo, o Pai  vira e resolve acabar com a agonia daquele moleque franzino.
‘- Tá afim de ir lá brincar? Afinal, é seu dia.’, pergunta o Pai.
‘- Sério? Você tá falando sério mesmo?’, responde afoito.
‘- Mas de leve, senão os caras percebem. É só pra moralizar a casa, depois tu volta. Sem exagero!’, retruca o homem.
‘-Deixa comigo!’, diz o menino com um ar pouco confiável.
‘- Quer ir no lugar de quem?’, o Pai pergunta.
‘- Deixa eu uns dois minutinhos naquele abusado ali. Vale nada também mas é gente boa. Tem meu estilo. Quero cara duro não!’
Dito e feito. Duas trivelas no meio de campo e uma caneta linda em Bressan, e o garoto volta.
‘- Que drible, hein, moleque? Não fez o gol por quê? Merecia! Que jogada linda!’, diz o Pai ao vê-lo.
‘- Ora, você não falou que não podia abusar? Se soubesse tinha entrado com bola e tudo, o Bernardo merecia essa. Mas tá tranquilo, o senhor sabe que eu gosto mesmo é driblar, já estou satisfeito. Valeu mesmo, Pai! Depois pago a gelada.’
‘- Aqui é de graça, rapaz!’, responde o Pai quase num susto.
‘Pois é, por isso!’, e caem os dois na gargalhada.
O juiz apita o fim e eles se abraçam. As lágrimas de alegria e saudade escorrem. Missão cumprida.
‘- Dener, aproveita que tá aqui e bate uma foto minha que vou mandar para o ‘dotô’. Acho que chamam de ‘zelfi’ essa parada agora.’
‘- Deixa comigo, Santana! Mas o certo é ‘servi”.
‘- Bate logo, Dener! Quero descansar.’
‘- Foi, ‘véio’!’.


 ‘Semana que vem estamos juntos?’, pergunta o menino Dener.
‘- Sempre, meu filho. Sempre…’, responde Pai Santana.
Saudações vascaínas! /+/
Ps: A morte de Dener completou 21 anos nesse domingo.

Um dia nada comum

Não é um dia comum. Muito menos um dia tranquilo e relaxante de domingo. É dia de clássico. É dia de Flamengo e Vasco. Dia de decisão.
A tradicional calmaria da manhã de domingo é trocada pela ansiedade, pela expectativa. Nas ruas, camisas e bandeiras demonstram a importância da partida, dividindo a população por uniformes. Não é segregação, é paixão.
As areias das praias ganham um rival, um adversário imponente: o Maracanã.
Com o velho manto já amarelado, se inicia o dia. O amanhecer traz algo de diferente, de novo, excitante. Se a noite anterior dificulta o sono, a manhã de domingo antecipa o acordar.
Não é um dia comum…
‘- E hoje, será que vai?’, pergunta o rapaz da padaria ao ver a camisa com a faixa diagonal.
‘- Tomara!’, respondo sem pestanejar.
Não é preciso conhecer a pessoa para puxar assunto. Se está na rua e uniformizado – mesmo com a do rival -. é motivo para dirigir a palavra, acenar com a cabeça ou até uma buzinada, sempre seguida de um grito: ‘- É hoje hein!’.
O sinal de ok reafirma: sim, é hoje!
Os panos tremulam nas janelas como se marcassem território. E marcam. É uma guerra fria, um jogo psicológico. Há algo de diferente no ar.
Não é uma partida de 90 minutos. Começa uma semana antes e não tem dia para terminar. Se é que termina… É algo constante, uma disputa no dia a dia, está no cotidiano dos torcedores.
Sem dúvida, não é um dia normal…
A Cruz de Malta no peito bate seguindo o ritmo do coração do vascaíno apaixonado. Dita o tom do que virá a ser o jogo. E a bola ainda nem rolou…
Pela voz da torcida, a paixão pelo Gigante é exaltada, do amanhecer até virar a madrugada. O que esperar de um dia como esse? Como lidar com esse amor? A resposta não existe.
Não é um dia normal. Não é para ser entendido ou explicado, é para ser vivido.
Viva!

sábado, 18 de abril de 2015

Dener, e se...

Madrugada do dia 19 de abril de 94, o atacante Dener sofre um acidente de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas. Apesar do carro ter sido destruído, o jogador sai ileso da batida graças ao cinto de segurança.
Debochado, horas depois o menino ri do acontecido e declara: “Se fosse eu dirigindo, teria driblado a árvore e deixado ela deitada do mesmo jeito”, diz com um leve sorriso no rosto, como se imaginasse a cena.
Sem ter noção do perigo que correu, treina normalmente no dia seguinte e se diz pronto para enfrentar o Flamengo no fim de semana. Expulso no primeiro duelo entre as equipes – vitória vascaínas por 3 a 1 -, Dener queria infernizar o rival. E o fez.
Com o Maraca lotado, o menino deita em cima do rubro-negro. Sem o menor respeito, entorta Gélson Baresi e Rogério Lourenço em cada jogada. Dener não quer jogar, quer dar show. E o faz. A cada drible, cada caneta, os cruz-maltinos que lotam as arquibancadas gritam seu nome. Ninguém para Dener.
Dos pés de Valdir sai o gol único do jogo, mas é o camisa 10 que sai ovacionado de campo. Dessa vez, após o apito, não depois de um vermelho.
O Vasco conquistaria o tricampeonato carioca de forma invicta naquele ano. Porém, para desespero dos torcedores, o atacante já havia acertado sua ida para o Sttutgart, da Alemanha. Ao fim do Estadual, deixa a Colina.
Endiabrado, é chamado por Parreira e vira o 12º jogador do time na Copa de 94. Após entrar no segundo tempo no lugar de Zinho e mudar a partida contra a Suécia, deixa o gramado cobrando sua vaga entre os titulares. Parreira não gosta e o deixa fora dos jogos contra Estados Unidos, Holanda e, novamente, a Suécia. Vitórias suadas e a nítida falta que o menino fez.
Porém, quando o Mundial parecia ter acabado para Dener, o treinador o lança no primeiro tempo da prorrogação contra a Itália, na final. Convencido por Ricardo Rocha, parceiro de Dener no Vasco, Parreira dá o braço a torcer e o coloca em campo na vaga de Mazinho. No primeiro lance, deixa Maldini deitado e rola para Branco bater cruzado, pra fora.
Faltando três minutos para a decisão ser definida nas penalidades, rouba a bola de Massaro no campo de defesa, tabela com Cafú, e avança pelo meio. Romário pede livre, mas ele não passa. É o lance que tanto sonhou. Sem pernas, os italianos não acompanham o pique do garoto. Dener é rápido e habilidoso demais para Baresi para-lo. Nem com falta.
“Oddio!”, esbraveja o defensor ao ver aquele moleque abusado vestindo a camisa 21 partindo com a bola dominada em direção ao gol.
Com um toque por cima, tira de Pagliuca e corre para o abraço. “É tetra! É tetra! É o gol do tetra! Dener é mágico!É tetra!”, gritam os narradores aos prantos. Dener vira herói nacional.
Ídolo no Brasil e campeão do mundo, chega à Alemanha com status de craque. Com dribles e arrancadas, ajuda o Stuttgart a chegar ao seu 5º título alemão e, de quebra, ainda leva a Copa da Alemanha.
Mais maduro, retorno ao Vasco em 98, após a saída de Edmundo do clube. Precisando de um novo 10, Eurico Miranda vai até a Alemanha repatriar o atleta. Mais de 30 mil vascaínos fazem a festa em São Januário para ver a apresentação do craque antes da estreia do time, contra o Bangu.
De helicóptero, Dener chega à Colina após quase quatro anos fora. Ao lado de Luizão, aceita a missão de comandar o ataque na Libertadores daquele ano. E consegue.
Na semifinal, contra o River Plate, deixa o campo aplaudido pela torcida adversária. Caindo nas costas de Sorín, bagunça o lado esquerdo da defesa argentina. Com cortes rápidos e curtos, tira para dançar seus marcadores e cria as melhores jogadas vascaínas.
Antes do intervalo, Dener já havia deixado Escudero e Ayala pendurados com cartões. Desesperados, os jogadores do River só conseguiram parar o atleta com falta. E é em uma delas que vem o momento de consagração.
Felipe rouba a bola de Gallardo e inverte para Dener. Sem deixar a bola cair, dá um chapéu desconsertante em  Solari, protagonizando um momento de rara beleza, que ficaria marcado na história do clube. Com o adversário no chão, avança na diagonal e passa por Astrada deixando o braço na cara do jogador, mas o juiz não vê. Nervoso, Berizzo dá carrinho criminoso e o derruba na entrada da área. Falta!
Juninho Pernambucano acerta um lindo chute, sem chance para Burgos, e empata o jogo, classificando o Cruz-Maltino. Além do golaço do meia, fica guardada na memória vascaína a linda jogada do ‘menino-gênio’.
‘Contra o River Plate sensacional, drible do Dener, no Monumental!’. Inesquecível!
Com mais um ano espetacular pelo Vasco, chega a Seleção Brasileira para a Copa de 98 em alta. Formando um quarteto mágico ao lado de Rivaldo, Bebeto e Ronaldo, chega até a final mas cai para a França de Zidane. O 1 a 0 magro garante aos donos da casa a sua primeira taça.
Expulso no meio do segundo tempo, após cotovelada em Lizarazu, Dener deixa a competição como vilão. Errar em uma Copa do Mundo é imperdoável para alguns. Contestado e hostilizado pela imprensa e torcida, retorna à Europa.
Com a camisa do Bétis, formou uma dupla de ataque infernal ao lado de Denílson. Na temporada 2001/2002, leva a equipe à 3ª colocação no Campeonato Espanhol e o classifica para a Champions League, fato que não alcançava desde 1965.
Com os joelhos castigados pelos rivais e já com 32 anos, Dener pouco atua na temporada seguinte. O Bétis acaba caindo na primeira fase da competição europeia e o atacante resolve voltar ao Brasil. Apesar de estar em baixa, deixa a Espanha idolatrado pelos torcedores que reconhecem seus feitos pelo clube.
Em 2004, dez anos após sua primeira passagem, acerta pela terceira vez com o Vasco. Lutando contra as dores, faz um Carioca razoável, com lampejos do menino que encantou a Colina, mas já sem a mesma alegria – no rosto e nas pernas. Os dribles de Dener encantavam a torcida, mas enfureciam os adversários. E seu corpo dava sintomas disso. As pernas sentem, e a expressão no rosto acusa.
Após altos e baixos na temporada, passando a maior parte do tempo no departamento médico, o camisa 10 deixa o clube no fim do ano e segue para a Portuguesa, onde encerra a carreira no início de 2006.
‘Malandro não para, dá um tempo’, diz Dener em sua coletiva de despedida. Mas ele realmente parou. Aos 34 anos de idade, com uma Copa do Mundo nas costas e muitos dribles para recordar, era hora de pendurar as chuteiras.
Neste domingo, Dener estará no Maracanã assistindo Flamengo x Vasco e pensando em como seria bom estar ali, no gramado. Com sua cara de moleque e seu sorriso desafiador, terá seu nome gritado pela torcida vascaína quando chegar ao estádio. É tradição: “Ê Cafuné! Ê Cafuné! O Dener é a mistura de Garrincha com Pelé!”.
Afinal, não existem ex-craques e nem ex-ídolos.
Eles são eternos.
Dener é.
Saudações vascaínas! /+/
Ps: Neste domingo, dia 19 de abril, completam-se 21 anos da morte de Dener.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O Massacre de Manchester

Eles chegaram com a tradicional elegância e a cordialidade inglesa. Eram temidos de onde vinham e impunham respeito. Mas não faziam ideia do que os esperavam.
Naquele dia 8 de janeiro de 2000, vestimos nossas melhores roupas, nos enchemos de orgulho e dignidade e fomos para a batalha. Paramentados com o mesmo uniforme, eramos milhares.
Nossa cavalaria estava preparada para enfrentar aqueles visitantes ‘indesejados’ e não tremeu. Para defender o território, usaram o que tinham de melhor. Armaram uma barreira quase intransponível e contaram com sua linha ofensiva para derrubar as bases inimigas.
Na primeira falha do flanco direito defensivo, onde o Sub-capitão Gary Neville marcava posição, o nosso ‘pequeno General’, Romário, recebeu  do ‘feroz Capitão’, Edmundo, e deu início ao massacre.
O abraço dos dois após o golpe inicial virou o símbolo daquela vitória.
Assutados pela competente e brava companhia do Vasco, três minutos depois, novamente Neville errou ao tentar proteger a retaguarda e novamente o Baixinho aproveitou o descuido: 2 a 0 e nem estávamos na metade da batalha.
O golpe de misericórdia viria antes do intervalo. Feridos e combalidos, os ingleses nada puderam fazer para impedir a genialidade de Edmundo.
De costas, o Animal derrubou o bloqueio, avançou e selou o atropelamento da cavalaria dos Templários Vascaínos sobre os ‘Garotos de Manchester’ com um golaço espetacular!
O Vasco sabia o que iria enfrentar. Pelo visto, o United não. E guerra avisada não mata soldado. Nós sabíamos.
No fim, perdemos a guerra, mas vencemos uma batalha importante, histórica, e que mostrou ao mundo, mais uma vez, a nossa grandeza!
Hoje não há um Diabo Vermelho sequer que não trema quando vê uma Cruz de Malta.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Querido Papai Noel

Querido Papai Noel,
Sei que há anos não tenho me comportado e nem sido um bom menino. Ainda assim, achei que escrevendo esta carta você talvez pudesse me ajudar. Ao contrário da maioria, não quero nenhum presente para mim, sei que não mereço.
Mas sei também que tudo que tenho foi conquistado por mim e pelos que me acompanham, nunca ganhei nada dos outros que não fosse por mérito próprio. Por isso, por nunca ter lhe pedido nada, acho que deveria ao menos ler minha carta.
O presente que lhe peço não é pra mim. Já sou ‘grandinho’. Aliás, um Gigante. Sei caminhar sozinho, apesar de muitas vezes tropeçar. E, sempre que isto aconteceu, tive milhões de amigos ao meu lado e queria retribuir este carinho.
Escrevo por eles, não por mim.
Porém, sei também que os presentes que costuma trazer são bem diferentes dos que eles precisam. Na verdade, eu esperava que você pudesse repassar o pedido para outro Papai que acho que conhece, afinal, você sempre aparece exatamente no aniversário de seu Filho.
Sim, ele mesmo, o ‘do céu’.
Minha casa tem nome de santo, mas achei melhor ir direto em você. Afinal, é quem está em alta no momento, certo?!
Como disse, a ajuda é para os meus amigos que por muitas vezes me carregaram e ajudaram. Eu, por minha vez, não tenho retribuído e os tenho feito sofrer. Só queria que eles tivessem um ano com mais alegrias, pode me ajudar com isso?!
Não sei o nome de todos mas é fácil reconhecê-los. Eles carregam uma cruz no peito e caminham de cabeça erguida e o coração leve. Viveram altos e baixos mas nunca fugiram da batalha. Dá para identificá-los pelos seus olhares apaixonados quando ouvem meu nome. Não acho que terás dificuldades para encontrá-los, eles são diferenciados.
Eu não ando merecendo, mas eles sim. Pode acreditar!
Desde já te agradeço, meu velho. Eles também.
Saudações vascaínas,
Ass: Club de Regatas Vasco da Gama
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...